Por Gilda Portella*
Racismo religioso e apagamento cultural: livro analisa violência contra religiões de matriz africana no Brasil
Publicado em 2020 na coleção Feminismos Plurais, o livro “Intolerância Religiosa”, de Sidnei Nogueira, propõe uma revisão crítica do termo amplamente utilizado para descrever ataques às religiões de matriz africana. Para o autor, classificar essas violências apenas como “intolerância” encobre um problema estrutural mais profundo: o racismo religioso e o consequente epistemicídio, ou seja, o apagamento sistemático de saberes e práticas negras .
A obra é apresentada como uma reflexão política, ética e cultural, escrita em linguagem acessível, que articula experiências pessoais, pesquisas históricas e contribuições de intelectuais negros como Frantz Fanon, Grada Kilomba, Achille Mbembe, Molefi Kete Asante e Aníbal Quijano. O objetivo é demonstrar como a noção de intolerância funciona, muitas vezes, como uma “máscara discursiva” para práticas racistas historicamente consolidadas no país .
O livro também relembra que o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, celebrado em 21 de janeiro, foi instituído pela Lei nº 11.635/2007 em memória de Mãe Gilda de Ogum, ialorixá do Ilê Axé Abassá de Ogum, em Salvador. Ela morreu após sofrer sucessivos ataques, incluindo difamação pública, invasão de seu terreiro e agressões físicas a familiares, em um caso emblemático de violência contra lideranças religiosas negras.
Para Nogueira, esse episódio revela que a perseguição às Comunidades Tradicionais de Terreiro (CTTro) não é pontual, mas parte de um processo histórico de criminalização das práticas religiosas afro-brasileiras, como Umbanda, Candomblé, Xambá, Batuque, Tambor de Mina e Jurema, entre outras .

Um dos pontos centrais do livro é a crítica ao próprio conceito de “tolerância”. Segundo o autor, o verbo “tolerar” significa suportar algo que não se deseja, o que pressupõe uma relação hierárquica entre quem tolera e quem é tolerado. Nesse sentido, a tolerância não implica reconhecimento, respeito ou valorização da diferença, mas apenas a aceitação resignada do que não se pode impedir.
Essa lógica, segundo a análise, reforça a ideia de uma suposta “cordialidade brasileira”, associada ao mito da democracia racial, que dificulta o reconhecimento do racismo como elemento estruturante das relações sociais e religiosas no país.
A obra apresenta dados de pesquisas e registros oficiais que apontam para a concentração de ataques contra religiões de matriz africana. Em levantamento realizado no Rio de Janeiro, mais da metade dos terreiros mapeados relatou ter sofrido algum tipo de agressão, sendo que grande parte ocorreu em espaços públicos. Entre os agressores identificados, evangélicos aparecem como o grupo mais frequente nos registros analisados.
Já os dados do Disque 100, entre 2011 e 2018, indicam que, em 2018, cerca de 30% das denúncias de violência religiosa partiram de vítimas ligadas à Umbanda, ao Candomblé e a outras religiões afro-brasileiras, enquanto religiões hegemônicas, como o catolicismo, aparecem com índices muito inferiores. O autor ressalta que a subnotificação é elevada, devido ao medo, à estigmatização e à invisibilidade social dessas comunidades, o que pode elevar significativamente esse percentual real de vítimas.

Para Sidnei Nogueira, o racismo religioso não se limita à agressão física ou verbal contra praticantes, mas atinge também as origens, os rituais, os sistemas filosóficos, os valores civilizatórios e as cosmologias africanas. Trata-se, portanto, de uma tentativa de negar a legitimidade de modos de existir que não se enquadram nos padrões eurocêntricos e cristãos dominantes.
O autor classifica esse processo como racismo epistêmico, pois desqualifica os terreiros como espaços produtores de conhecimento, apagando tecnologias sociais, práticas de cuidado, transmissão oral de saberes e sistemas éticos próprios dessas tradições.
Outro tema abordado é a estigmatização de práticas rituais, especialmente a sacralização e o consumo de animais. Nogueira detalha os fundamentos religiosos desses ritos, explicando que eles fazem parte de uma lógica comunitária de partilha, celebração e manutenção do axé, o princípio vital das tradições afro-brasileiras. Segundo o autor, a demonização dessas práticas ignora seus significados simbólicos e sociais, contribuindo para reforçar preconceitos e justificar ataques.
No último capítulo, o livro propõe que o enfrentamento do racismo religioso passa pela valorização das epistemologias negras e pela recuperação do sentido da encruzilhada, símbolo de multiplicidade, escolha e diálogo nas cosmologias afro-diaspóricas. A ética dos terreiros, baseada na coletividade, no cuidado mútuo e na responsabilidade individual, é apresentada como um modelo possível de convivência plural e democrática.
Para Nogueira, somente a partir do reconhecimento das tradições afro-brasileiras como produtoras legítimas de conhecimento e cultura será possível romper com a lógica colonial que sustenta a violência contra essas comunidades.

*Gilda Portella - Sacerdotisa de umbanda, multiartista, escritora, coafrofundadora do Coletivo Herdeiras do Quariterê, mestre em Estudos de Cultura Contemporânea da UFMT. Membra do LATINAS – Grupo de Pesquisa sobre Decolonialidade, Trabalho e Cuidado do CNPq.


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